COLUNA COMUNICANDO | A caneta 🖊 que quer arrancar a igreja, calar o povo — e não largar o palco

Seja bem-vindo
Estância,14/04/2026

  • A +
  • A -

COLUNA COMUNICANDO com DIOGO OLIVEIRA

COLUNA COMUNICANDO | A caneta 🖊 que quer arrancar a igreja, calar o povo — e não largar o palco


COLUNA COMUNICANDO | A caneta 🖊 que quer arrancar a igreja, calar o povo — e não largar o palco

A decisão mais recente do juiz federal Rafael Soares Souza escancara o que já não é mais possível disfarçar: não se trata apenas de preservar o meio ambiente — trata-se de impor uma visão rígida, fria e absolutamente desconectada da realidade social, histórica e humana da Praia do Saco. Mandar desmontar a capela de Nossa Senhora da Boa Viagem não é só uma sentença. É um gesto simbólico. É tentar arrancar, com a tinta da caneta, a fé, a memória e a identidade de um povo.


E aqui é preciso colocar o dedo na ferida: a igreja não tem quatro séculos como muitos repetem de forma automática. A edificação atual remonta ao final do século XIX. Mas isso pouco importa para quem entende de história. O valor daquele templo não está apenas nos tijolos, mas no que ele representa — a passagem jesuíta, a tradição religiosa, a construção simbólica de uma comunidade inteira. Tanto que o espaço foi reconhecido como patrimônio histórico, cultural e religioso por lei municipal, iniciativa construída no âmbito da Câmara de Vereadores de Estância, com participação de nomes como Dionísio Neto e André Graça (Atual Prefeito de Estância). Tombamento, nesse caso, significa preservar onde está — não “tombar” no sentido literal que parece orientar certas decisões.

A ironia é cruel: o mesmo magistrado que agora manda desmontar a igreja, já havia, em outro momento, impedido intervenções para protegê-la do avanço do mar. À época, foi preciso recorrer ao Tribunal Regional Federal da 5ª Região para garantir medidas emergenciais. Se hoje a capela ainda está de pé, não é por benevolência da caneta local, mas porque instâncias superiores entenderam o óbvio: preservar também é proteger.

E o histórico não para por aí.

O processo que hoje sustenta essa decisão vem se arrastando desde 2014, com raízes ainda mais antigas, lá em 2009, quando o Ministério Público Federal iniciou as ações sobre ocupação irregular. De lá pra cá, a régua adotada na Praia do Saco virou um laboratório de rigor extremo: proibição de reformas, impedimento de manutenção básica, restrições ao uso de energia elétrica, repressão ao passeio de buggy — atividade turística comum em qualquer litoral do Nordeste — e decisões que culminaram na ordem de demolição de centenas de imóveis.

Famílias inteiras assistiram, impotentes, ao mar avançar e levar seus sonhos embora. Sem poder conter, sem poder proteger, sem sequer poder manter. O patrimônio sendo engolido pela maré — e a Justiça, em vez de mediar soluções, assistindo com o carimbo na mão.

Enquanto isso, basta olhar para frente. Literalmente.

Ali, na divisa com a Bahia, onde o Rio Real encontra o Rio Piauí, a realidade é outra. Do outro lado, sob influência política mais robusta, há orlas estruturadas, pousadas, investimentos turísticos e intervenção pública para conter a erosão. Por aqui, o que se vê é o oposto: proíbe-se tudo, impede-se tudo, desmonta-se tudo. Inclusive a história.

E não custa lembrar: em Aracaju, na valorizada região da 13 de Julho, o avanço do mar também ameaçou patrimônio — e ali houve decisão política. Sob liderança de João Alves Filho, foram construídos quebra-mares, contenções, urbanização. Protegeu-se o patrimônio, preservou-se a cidade e manteve-se o desenvolvimento. Dois pesos, duas medidas. Ou melhor: dois litorais, duas realidades — e uma pergunta incômoda.

Por que lá pode e aqui não?


A retirada do monumento com o nome “Praia do Saco”, em 2020, já havia dado o tom. Um símbolo turístico, um marco de identidade, simplesmente suprimido sob o argumento de que não poderia haver “edificação” na área. Resultado? Turistas impedidos de registrar o lugar, moradores feridos em seu pertencimento. Um gesto pequeno no tamanho, mas gigante no significado. Ali já se desenhava o padrão: apagar referências, silenciar identidade.

Agora, a história se repete — só que mais grave. Muito mais grave.

E como se não bastasse, há uma contradição que beira o absurdo: recentemente, o próprio juízo autorizou a retomada das celebrações religiosas na capela, reconhecendo que não havia impedimentos técnicos para seu funcionamento. Ora, se não havia risco imediato, se as adequações foram realizadas com acompanhamento técnico, o que mudou tão rapidamente para justificar a desmontagem?

A resposta pode não estar nos autos — mas salta aos olhos.

Há, no conjunto das decisões, um traço de descontinuidade, de incoerência e, sobretudo, de protagonismo. Como se a caneta não apenas decidisse, mas precisasse ser vista decidindo. Como se o caso, que caminha para soluções institucionais entre Ministério Público Federal, Governo de Sergipe e Prefeitura de Estância, estivesse deixando de orbitar um único centro de poder.

E aí entra um elemento que a coluna não ignora: o risco do ostracismo.

Durante anos, esse imbróglio colocou a 7ª Vara no centro do debate público. Decisões repercutiram nacionalmente, ganharam páginas de revistas como a CartaCapital, acenderam holofotes. Mas quando o conflito começa a encontrar caminhos de conciliação — com propostas de desenvolvimento sustentável, investimentos estruturantes e soluções técnicas — o palco muda.


E talvez aí esteja o incômodo.

Porque enquanto a região poderia estar avançando com saneamento, urbanização e turismo estruturado, ficou parada no tempo. Travada por decisões que, sob o discurso de preservar, acabaram por impedir qualquer alternativa viável. O custo disso não é abstrato. É real. É econômico. É social. É humano.

E aqui entra um capítulo que não pode ser ignorado: ainda entre 2014 e 2015, investimentos robustos foram simplesmente perdidos. Recursos previstos com apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento deixaram de chegar. Junto com eles, foram embora projetos de saneamento básico, estruturação de orla, infraestrutura turística e até empreendimentos como resorts que poderiam impulsionar a economia local. Um prejuízo silencioso, mas devastador, diretamente ligado ao ambiente de insegurança jurídica criado pelas decisões.

O povo do Saco — e aqui o trocadilho é inevitável — já está de saco cheio.

Cheio da frieza.

Cheio do autoritarismo.

Cheio de decisões que ignoram a vida real.

Cheio de ver seu patrimônio desaparecer sem poder agir.

Cheio de ver oportunidades escaparem.

Cheio de ver sua história ser tratada como detalhe técnico.

E diante de tudo isso, cabe um questionamento legítimo: diante de tantas decisões controversas, de tamanha rigidez e de um histórico que já ultrapassa uma década, não seria o caso de o magistrado avaliar sua própria condição de imparcialidade no caso?

Porque Justiça não é apenas aplicar a lei. É interpretar com equilíbrio, sensibilidade e responsabilidade social.

A boa notícia — se é que há — é que desta vez o cenário é outro.

Há reação.

Diocese de Estância, Governo de Sergipe, Prefeitura de Estância, classe política, imprensa e população já se movimentam. Recursos serão apresentados. O debate ganhou corpo. E, ao contrário de outros momentos, não há silêncio.

Desta vez, a caneta vai ter que enfrentar muito mais do que papel.

Vai enfrentar um povo inteiro.



COMENTÁRIOS

LEIA TAMBÉM

Buscar

Alterar Local

Anuncie Aqui

Escolha abaixo onde deseja anunciar.

Efetue o Login

Recuperar Senha

Baixe o Nosso Aplicativo!

Tenha todas as novidades na palma da sua mão.