Porto D’Areia se afirma como território de memória e potência cultural no 1º Encontro Jorge Maravilha
Entre fé, ancestralidade e resistência, comunidade quilombola transforma tradição em espetáculo vivo e projeta Estância no cenário cultural sergipano
Foto: Igorfotografiablack 

Foi nesse chão, marcado por memórias de pescadores, fogueteiros e artesãos, que o 1º Encontro Cultural Jorge Maravilha aconteceu — não como um evento isolado, mas como continuidade de uma história que pulsa nas ruas, nas casas e nas pessoas. Um encontro que não ocupou o bairro: nasceu dele, com a verdade de quem vive e constrói cultura todos os dias.

Porto D’Areia já foi ponto de chegada, lugar de travessias, encontro de caminhos e histórias. Hoje, reafirma-se como território simbólico de saberes, onde tradição e identidade caminham juntas. E foi exatamente esse sentimento que atravessou cada instante do encontro: pertencimento. Um pertencimento que não se explica — se sente.

A cultura se apresentou ali em sua forma mais viva. A poesia ecoando como voz coletiva, o ballet dialogando com a simplicidade do espaço, as expressões artísticas se entrelaçando sem hierarquia. Tudo parecia afirmar que a cultura não precisa de moldura — ela acontece onde há verdade.

A programação construiu, ao longo do dia, uma narrativa potente. Da poesia “Cultura Estanciana”, de Wilton Santos, que abriu caminhos para o sentimento que viria, às apresentações do Black Caatinga Studio, da performance “Forró de Todos Nós”, da capoeira, do maculelê, do Cacumbi do Mestre Deca e do Reisado da Mussuca, o encontro foi costurando linguagens e histórias que traduzem a riqueza da cultura afro-sergipana.

A batucada, como não poderia ser diferente, fez o coração de Estância pulsar mais forte. Os tamancos marcando o chão, as caixas respondendo em coro, os corpos vibrando em unidade. Não era apenas som — era identidade. Era o bairro dizendo quem é, sem precisar traduzir.

Entre os símbolos mais fortes, a presença de Dona Zefinha, referência da batucada Busca-Pé, trouxe densidade e respeito. Sua simples presença carregava memória, legitimidade e continuidade. Era o elo vivo entre gerações, a prova de que tradição se constrói com pessoas que fazem da cultura uma missão.

A força da matriz afro ganhou ainda mais expressão com a capoeira, o maculelê e a presença marcante do Projeto Tambores da Esperança Mirim, que trouxe à cena algo essencial: a formação de novas gerações conscientes de sua identidade. Ali, cultura não é apenas herança — é construção. É futuro sendo preparado com base no orgulho das origens.

Esse orgulho também se revelou nos corpos. As pinturas, os traços, os símbolos estampados na pele diziam muito sem precisar de palavras. Eram afirmação, pertencimento e resistência. Era a beleza de um povo que não nega suas raízes — ao contrário, as exibe com força, dignidade e orgulho.

A noite manteve a mesma intensidade. Mateus Senagá abriu com sensibilidade, o Ballet da Tia Vitória encantou, as poesias de Nauhana Reis e Janaína tocaram fundo. E então a música ganhou protagonismo com Kátia Silva, filha do próprio bairro, que cantou como quem traduz a alma de Porto D’Areia em voz. Ao seu lado, Fabinho do Acordeon, referência da música estanciana e parceiro de tantas jornadas com Jorge Maravilha, trouxe memória, afeto e identidade em cada acorde.

O tributo ao Poeta Cantador Jorge Maravilha foi um dos momentos mais emblemáticos. Mais do que uma homenagem, foi um reencontro com um legado que segue vivo. Sua presença foi sentida em cada verso, em cada acorde, em cada emoção compartilhada.

O encontro ainda encontrou força na imagem. Pelas lentes do fotógrafo Igor Leonardo, agente cultural comprometido com a cultura afro, o que foi vivido ganhou permanência. Seu olhar captou mais que cenas — registrou essência, movimento e sentimento. Transformou o efêmero em memória.


E no centro de tudo isso, uma presença que costurou o encontro do início ao fim: Wilton Santos. Idealizador, poeta, artista múltiplo, sensível e comprometido com sua terra. Foi dele não apenas a concepção do projeto, mas a alma que o conduziu. Sua poesia abriu caminhos, sua sensibilidade deu forma ao ambiente, sua presença guiou o tom. Wilton não apenas organizou — ele viveu o encontro. E, como todo grande artista, transformou o que tocou.

O 1º Encontro Cultural Jorge Maravilha não transformou Porto D’Areia — revelou ao olhar coletivo aquilo que o bairro sempre foi: um território onde cultura é existência, onde tradição é presente vivo, onde o povo não assiste — faz.

E talvez esteja aí um recado importante: quando a cultura nasce do povo e encontra espaço para florescer, ela não apenas emociona — ela posiciona. Estância tem história, tem identidade e tem força criativa para assumir, com ainda mais protagonismo, o seu lugar no mapa cultural sergipano. Ao lado de referências como Laranjeiras e São Cristóvão, o município mostra que pode ir além dos ciclos tradicionais e afirmar, durante todo o ano, a potência viva de sua cultura.




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