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Estância,12/05/2026

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Prédios do Centro Histórico de Estância carecem de política de incentivo e preservação

Entre a cura e o esquecimento: quando a cidade troca sua memória por estruturas sem história

CS
Prédios do Centro Histórico de Estância carecem de política de incentivo e preservação Casarão Praça Barão do Rio Branco

Estância ocupa um lugar singular na formação histórica de Sergipe. Seu conjunto urbano revela uma cidade que já foi referência econômica, política e cultural, marcada por casarões coloniais, edificações com azulejaria portuguesa, antigos trapiches do Porto d’Areia, a Vila Operária e espaços que testemunham diferentes ciclos da vida social. Registros históricos apontam ainda a passagem de Dom Pedro II e sua comitiva pela região, reforçando o papel estratégico que o município já exerceu no cenário provincial.

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Essa Estância de outros tempos não era apenas feita de pedra e cal. Era também feita de encontros: cinemas que reuniam a cidade, clubes que organizavam sua vida social, espaços de arte, convivência e formação cultural. Em determinado ponto dessa trajetória, uma biblioteca — guardiã do silêncio e do pensamento — deu lugar a uma academia de musculação. O que antes era espaço de leitura, curiosidade e formação crítica passou a ser ocupado por um ambiente voltado ao corpo, ao espelho e ao desempenho físico. A transformação não é apenas física; é simbólica. Como se, na passagem de mãos e de gerações, o antigo zelo pelo intelecto tivesse sido substituído por uma estética da força e da aparência, apagando discretamente a centralidade do conhecimento como pilar da vida urbana.


Esse deslocamento se projeta para além de um único imóvel. Ele ecoa na própria paisagem da cidade, onde o “intelecto arquitetônico” dos antigos casarões vem sendo substituído por estruturas modernas, repetitivas, espalhadas pelo centro, como se os novos “músculos” urbanos — farmácias, estacionamentos, galerias e empreendimentos padronizados — fossem gradualmente ocupando o lugar da memória construída em azulejos, varandas e fachadas ornamentadas.


Nesse cenário, o centro histórico vai sendo lentamente redesenhado. Um antigo casarão na Praça Barão do Rio Branco deu lugar a uma unidade da Drogazil. Na Praça Orlando Gomes — espaço historicamente associado às famílias mais influentes da cidade, especialmente nas “quatro esquinas” do seu entorno — um imóvel de valor arquitetônico foi substituído por uma unidade da Farmácia Pague Menos, com perda total da identidade original da fachada.


Na Rua Capitão Salomão, um prédio que abrigou a antiga sede da Câmara de Vereadores ainda mantém sua fachada após intervenção do Ministério Público, tornando-se uma das poucas exceções em meio a um processo contínuo de descaracterização do centro histórico.


O episódio mais recente ocorreu no entroncamento da Praça Barão do Rio Branco com a Rua Gumercindo Bessa. A queda de parte da marquise lateral de um imóvel levou à interdição parcial da via e expôs a fragilidade de edificações históricas sem manutenção adequada. O prédio, atualmente sob domínio do Grupo Farmácia JB, estaria inserido em um contexto de possível substituição total da estrutura para instalação de mais uma unidade farmacêutica.


Aqui não se trata de negar o tempo nem o desenvolvimento. Mas de perguntar, com a honestidade que a memória exige: por que modernizar sempre significou apagar? Por que a nova forma de ocupação urbana precisa, quase sempre, significar a extinção da anterior?

A Estância que já teve cinemas, clubes, espaços culturais e intensa vida social vai sendo substituída por uma paisagem homogênea de consumo e funcionalidade. Aos poucos, perde-se não apenas a arquitetura, mas o vínculo afetivo com a cidade.


Esse processo revela a ausência de uma política pública consistente de preservação. Instrumentos como isenção ou redução de IPTU e taxas municipais vinculadas à restauração de imóveis históricos poderiam aliviar o custo da conservação e incentivar a permanência da memória construída. Em muitas cidades, esse tipo de política é o que impede que o passado seja economicamente inviabilizado.


No âmbito estadual, experiências como o programa Monumenta já demonstraram resultados concretos em cidades como São Cristóvão e Laranjeiras, com restauração de trapiches, igrejas e conjuntos arquitetônicos inteiros. Em Estância, estruturas como os trapiches do Porto d’Areia e a Vila Operária seriam naturalmente parte de um projeto semelhante de requalificação cultural e turística.


Também se faz necessário avançar em políticas de fomento à preservação com editais específicos para o patrimônio material, inspirados em leis como a Aldir Blanc e a Paulo Gustavo, adaptadas à realidade urbana, com recorte por município e financiamento contínuo.

O IPHAN permanece como referência técnica, mas insuficiente diante da dinâmica cotidiana de uma cidade viva, onde o patrimônio não é apenas monumento, mas parte do dia a dia.

O episódio recente ocorreu em uma área de intenso fluxo de pedestres, estudantes e idosos. Ainda que não tenha havido vítimas, o risco foi concreto e visível.


Preservar Estância não é um gesto de nostalgia. É um ato de responsabilidade histórica. É reconhecer que por aqui passaram Dom Pedro II e sua comitiva, que a cidade já teve centralidade econômica e cultural no estado, e que sua identidade foi construída em camadas de tempo, trabalho e convivência.


Sem isso, corre-se o risco de transformar uma cidade de memória viva em uma superfície uniforme, onde tudo funciona, mas nada permanece. Uma cidade onde os “músculos” crescem, mas o pensamento encolhe — e onde o passado, silenciosamente, deixa de encontrar lugar.




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